De São Jorge para São Petrônio

23550417_10156099212469665_5130140884713430741_o

Dos 7 títulos brasileiros, este é o primeiro que acompanho totalmente “de fora”. Logo eu que fui no primeiro jogo da história da Arena, uma derrota amarga em um dia chuvoso. Estávamos todos nervosos e ansiosos, desde os torcedores, jogadores e até São Pedro, por consequência. Esta foi uma breve alegria para os fanáticos do time com maior torcida do mundo: os antis. Nada é fácil para o Corinthians, era mais uma história que se iniciava com toques em preto e branco.

 
Em 2015 acompanhei praticamente todos os jogos da campanha do hexa na Arena, finalizando com o acachapante 6×1 no time completo da “Vila Sônia”, e nós com uma equipe toda formada por reservas em plena ressaca. Sabia de certo modo que aquela seria a última temporada que acompanharia com tal intensidade e aquela partida, foi pra fechar com qualquer coisa de inesquecível.
 
Aqui em Bologna, achei que ficaria satisfeito em analisar as tabelas, acompanhar notícias, resultados, essas coisas. Engano. Acabei assistindo todos os confrontos possíveis, mesmo com o fuso horário levando algumas partidas para as altas madrugadas italianas. Eu bem que falava pra Elisa dormir sossegada, mas ela veio junto e acabava fazendo mais barulho do que eu pra comemorar os gols ou tecer algum “elogio” ao juiz.
 
Não havia ruídos de fogos, nem de xingamentos ou comemorações contra ou a favor de quem enfrentava o alvinegro. Éramos nós e a televisão no meio da antiga cidade medieval. Talvez São Petrônio tenha trocado uma ideia com São Jorge, indagando sobre esses loucos fora do bando.
 
De muito longe, vi uma das coisas mais absurdas e impressionantes do esporte. 32 mil torcedores assistirem um treinamento quando a equipe mais precisava de apoio. Era uma das tantas provas e argumentos que esta torcida faz esse time. Ganhando ou perdendo, este negócio de SC Corinthians Paulista é diferente. E hoje, mais diferente ainda, com uma palavra de origem grega que não é muito comum em nosso vocabulário: #hepta.

vincenzo

15039489_10154812700194665_31910502948590023_o

Esse é o Vincenzo. Napolitano gente boníssima! Mora em Bologna faz um ano. Sabe tudo da cidade. É um guia? Não, é um operário que trabalha na restauração da Igreja de San Petronio e fica de olho no fluxo de visitantes e a comunicação com o térreo.

A comunidade aproveitou o vai e vem
das obras e construiu um mirante temporário, com elevador, não tão alto como a Torre degli Asinelli e seus 498 degraus estreitos que devem ser quase que escalados. Mesmo assim, optamos por também subir pelas escadas mais católicas, o equivalente a 12 andares. Fichinha pura perto da torre.

Do alto mais uma bela vista da vermelha Bologna e sua arquitetura medieval. E por ali também conhecemos esse napolitano, uma verdadeira peça de simpatia, que “pedia” aos amigos operários pararem de fazer barulho para podermos conversar mais tranquilamente sobre amenidades. “Felipe, desculpe o incômodo, são operários, não têm modos”. E todos riam. Martelavam em seguida. E logo voltavam com alguma outra.

Nos presenteou com uma peça antiga de metal forjada a mão, que seus amigos tinham acabado de encontrar pelo telhado. Fomos testemunhas do achado “arqueológico”. Disse que era uma “obra de arte”, dessas que não se produzem mais na construção civil. Não, obrigado, imagina…”como podem recusar minha oferta?” Não recusamos então.

Quando um visitante chegava, logo sua língua salivava para poder apontar alguma coisa. Depois que lhe disse que eu era seu ‘Fratelli d’Italia’, a coisa ficou ainda mais solta e interativa com quem aparecesse.

O elevador industrial obriga a comunicação com o térreo. Faz de tudo para que as pessoas voltem de escada. Quem optasse por descer de elevador ganhava um saco de ironias entre os comunicadores, que em qualquer dialeto se fazia entender. Mais um motivo para descermos a pé, evidente.

Disse com humildade que sabia de tanta coisa da cidade porque passa dias e horas no mesmo local, era quase que uma “obrigação”. Comentei que tantas pessoas passam a vida em um mesmo lugar e não esboçam interesse nem no que está na frente do próprio nariz. Ele afirma que não é um conformista. Disse a nós com olhar firme, que se estivesse em cima de uma pedra deserta, trabalharia com a mesma paixão. Isso é o que lhe move. Não duvidamos.

Claro, na foto uma última de Vincenzo. Disse que só subindo na cadeira faria esse registro comigo. Desceu apenas para não tapar a Torre degli Asinelli. Uma figurante, obviamente.

un altro giorno

FHG_0634.jpg

Depois de nos embriagarmos com a beleza da Piazza Duomo – Parma, era necessário parar, pensar e almoçar muito bem, como merecia a ocasião. Um restaurante ali mesmo na praça, entre o tímido e o atraente.

Como é comum na Itália, somos atendidos pelo proprietário. A Elisa pede um “Linguine con calamari, bottarga e indivia”. Sou magnetizado por um “Riso mantecato al parmigiano”.
Evidente, desejo uma taça de vinho local para acompanhar. Entre as sugestões, um Nabucco – 2011, vinho com complexidade e aromas ideais para encarar a beleza de um prato com parmigiano em seu próprio território.
Talvez meus olhos tenham virado ao primeiro gole da jóia emiliana. Uma própria peça de arte. No segundo ou terceiro estava em êxtase completo com a harmonização fluente com o prato. Esses momentos se repetiram durante um tempo infinito. Um último naco de pão no prato e então, l’addio.
Segue a missa com o café e então, a conta. Apesar de controlarmos bem tudo o que pedimos, dessa vez me esqueci completamente de conferir a altura do salto da taça, talvez por se tratar de uma sugestão tão detalhada e certeira. Estamos preparados para algum peso a mais na conta, apesar de achar justo pela satisfação com a altíssima qualidade do que degustamos.
Relatamos ao proprietário nossos sentimentos plenos de satisfação. Ele então entrega a conta…e algo estranho. O preço está bem tranquilo e dentro do que costumamos investir quando entramos em um bom restaurante. Sim, faltou o vinho…que ele confere e confirma. Dá um sorriso e diz com elegância tranquila e muito decisiva: “Un altro giorno, forse. Spero per voi.”

http://www.angioldor.it

que dia é hoje?

P1072912-1.jpg

 

Talvez na intenção infantil de replicar alguns costumes do meu Vô, o fato é que desde criança tenho o costume antigo de ler o jornal pela manhã, ou ao menos, se inteirar de boa parte dele. Um hábito totalmente arraigado. Ainda me deixa sem graça não saber o que está acontecendo, por mais que algumas vezes isso seja necessário.

Quando criança e adolescente, enxergava nesse hábito uma pequena qualidade pessoal. Pensando aqui, acho que verdadeiramente nunca esquentei a cabeça com as minhas notas baixas na escola, principalmente quando notava que a maioria das outras crianças estavam afiadas com a lição de ontem e absolutamente nulas com a realidade de hoje.

Ainda que as notícias do dia amanheçam antigas em minha porta, todavia mantenho uma assinatura de jornal impresso; mesmo que seja uma mídia meio engessada, o jornal também se diversificou com o tempo, há editoriais, crônicas, fotos, enfim, fatos que se posicionam além das notícias e com a emergência do tempo. Gosto de ver um caderno perdido em alguma mesa e checar alguma coisa que ainda não tenha visto na rede. Ou então, ler algum prognóstico de algo que já avançou durante o dia. No fim, as informações se completam ou se dissolvem logo de uma vez.

Inicialmente, acreditava que o jornal era a voz da razão, imparcialidade e da verdade absoluta. Com o tempo, obviamente não acredito piamente nem no jornal que assino. Por isso gosto de ler algumas notícias em várias fontes para tentar ter alguma sensatez comigo mesmo. Com a internet isso extrapolou, com a possibilidade de ler um mesmo fato em jornais do mundo inteiro. É o que eu costumo fazer com alguns jornais importantes mundo afora ou de locais que já visitei. Claro que pela dificuldade linguística e impossibilidade de fazer tudo, o objetivo é mais ‘ficar por dentro’. Vale ficar só na manchete de vez em quando? Não vejo problemas, desde que esteja claro que esse é o limite da sua informação de momento.

Se eu tivesse uma empresa ou um cargo diretivo, cobraria dos meus funcionários que estivessem atualizados, seja lá o ramo que fosse. Pararia as máquinas vez em quando e promoveria discussões sem censuras, abertura de opiniões e ideias. Não é o que eu vejo por aí. A maioria forma opinião sobre os fatos, com base na opinião simples na opinião alheia, ou pior, massificada e panfletária. Sendo bem contemporâneo, com base em “mêmes”, ou apenas no que a TV “fala”. O fato de praticar a leitura já estimula o bom argumento e essa é uma ferramenta das mais poderosas, que só pode ser construída e lapidada pelo próprio indivíduo.

Ainda que breve, de vez em quando quero dar um tempo no mergulho em notícias, principalmente quando estou viajando e desejo uma vida um pouco mais leve. Certa vez estava em uma pequena cidade italiana e o proprietário de uma loja de souvenires veio puxar conversa. Quando disse que era brasileiro, ele logo veio querendo discutir sobre nossa tragédia mais recente, e eu estava completamente por fora, pois havia decidido não ler nada sobre o Brasil durante uns dias. Fiquei com aquela cara de bobo, com o italiano me contando algo que eu deveria muito saber, e eu achei que ele não fosse nunca falar. Tentando demonstrar desinteresse para afastar minha ignorância e aproveitando meu escasso domínio da língua italiana, logo troquei o assunto e nem precisei recorrer as intempéries, pois acabamos trocando ideias sobre os nossos labradores que tinham a mesma idade, Elvis e Martì. Que alívio.

Ia abordar sobre a quantidade de coisas ruins que acontecem no Brasil e acabei discorrendo sobre a engenharia disso. Este não é um país que tenha inimigos, guerras e passe por catástrofes violentas. Mas as notícias, de hora em hora, são muito fortes. As pessoas, incluindo a imprensa, elegem uma ou outra para se chocarem uns dias, mas logo passa. Talvez esse passar tão gratuito seja uma das sangrias mais persistentes deste país.

Algumas vezes o jornal permanece na varanda e por lá fica uns dias. O sol se encarrega na tentativa de apagar as palavras que circunda, informa, entristece e algumas parcas vezes, anestesia o leitor da realidade; ainda que no próximo dia, um cheiro forte de tinta sob um papel vagabundo venha deselegantemente lembrar: que dia é hoje.

Arte: Fotografia de ‘The Death of Major Peirson, 6 January 1781’ (recorte)
John Singleton Copley – 1783
Óleo sobre tela
Tate Gallery – Londres