o arquiteto

Observo o arquiteto olhando calmamente para o alto, mirando aquele velho palacete vazio do séc. XIX, que também observo todos os dias com dezenas de indagações. Não é a primeira vez que “esbarro” com aquele senhor. Dessa vez, crio coragem, saco os fones, pauso o instante e o cumprimento meio que em total reverência. Ele sorri, simpático e entre uma palavra e outra diz que seu filho também é fotógrafo. Não ouso falar muito, escuto apenas. Em um instante de alta curiosidade pergunto se mora por ali e logo certifico que somos vizinhos de rua. Nos despedimos, ele então segue seus passos sobre a urbanidade. E eu, com a sensação certificada que tive o prazer de conversar com Paulo Mendes da Rocha.

é tudo verdade, não é mentira não

Caminhando pelas ruas do bairro depois das dez da noite, avisto minha amiga Márcia sentada na calçada, na rua lateral de uma farmácia, bem próximo de um parque. Toda encolhida pela frio, com um cachecol amarelo elegantemente cobrindo a cabeça e uma sacola plástica no chão com alguns de seus pertences – o restante prefere deixar guardado em uma papelaria de um amigo – não confia em quase ninguém e se recusa a dormir em abrigos. Quando consegue algum dinheiro ou serviço, dorme em hotéis baratos, mas é raro.

Quem a conhece não está acostumado a vê-la de cima para baixo. Tiro os fones, deixo Brahms de lado e me reconecto de vez com o mundo terreno. Após nos cumprimentarmos ela me convida para sentar ali, como se convida alguém para sentar em sua sala de estar. Pede desculpa por estar cheirando a alho, que algumas vezes esfrega no rosto para espantar seus detratores durante a madrugada que se aproxima. Sinto o cheiro, mas logo me acostumo e entendo seus motivos. Quando a encontro andando por aí, sempre está perfumada e com roupas limpas. O seu jeito de se vestir é completamente personalizado. Ela mesmo costura suas roupas.

Passada algumas queixas corriqueiras e seus problemas de saúde que atormentam seus pensamentos, espero ela se realocar e então pela enésima vez escuto algum trecho de sua trajetória de vida. A habilidade para contar uma mesma história é inacreditável. Facilmente ela prende a atenção do ouvinte, a fala é clara e a voz firme, o português é bom. A minúcia de detalhes é enorme, o ritmo veloz, como um filme contemporâneo com roteiro extenso e muita pressa. Vez em quando ela retorna para o instante presente, faz alguma pergunta pra checar se está atento, puxa alguma conexão aqui ou ali ou então é distraída por alguma coisa, acende mais um cigarro, um pequeno silêncio. Logo retorna e segue adiante.

São inúmeros nomes de cidades, ruas, bairros, nomes e sobrenomes, alguns até com o número do RG. Algumas vezes sou obrigado a interromper só pra ter certeza que estou entendendo tudo, volto em algum assunto ou nome. Ela explica novamente, dessa vez em tom mais alto. Dificilmente acha graça ou sorri de algo quando conta sua história. Alguns assuntos fala em tom mais ameno, em outros fica mais grave e pausado, movimenta muito as mãos. Cerra, abre, aponta. É uma dramática sinfonia que rege.

Daquele ângulo ficamos bem próximo dos focinhos dos cachorros, da porta dos carros e dos joelhos das pessoas. Poucas nos olham. Algumas olham só para mim, outras só para ela, mas são realmente poucas. Talvez com medo, um jovem chinês engravatado estaciona seu carro de uns cento e cinquenta mil reais longe de nós, sob a faixa de pedestres, enquanto se dirige a farmácia. Uma outra deixa o cachorro latindo no carro. Logo outro senhor estaciona e assim segue. Uns judeus paramentados caminham devagar do outro lado da rua, uma criança desse lado quase esbarra no meu pé. A cidade segue lenta, mas a angústia da Márcia parece que se renova a cada minuto. O Marlboro a acalma depois de cada trago.

Passo um par de horas ali sentado de pernas cruzadas, na quase garoa. Não consigo ficar tão elegante quanto ela, sentada no beiral como se estivesse em uma bela poltrona design dos anos 50. Quando o quase vira garoa propriamente dita, abre um guarda chuva e me oferece abrigo, mas prefiro ficar do jeito que estou. Como em um final de capítulo repentino, logo decide encerrar sua história para quem sabe continuar outro dia, ou via escrita, nos cartazes que afixa nos muros, com trechos de sua história emaranhados com crônicas da sociedade. Volta a alguns assuntos cotidianos e completa com uma suas frases mais emblemáticas: “é tudo verdade, não é mentira não”.

influenza tipo b(orges)

Quando certa manhã Jorge Luís Borges acordou de sonhos intranquilos encontrou-se em sua cama transformado por um poema monstruoso. O escritor se levantou e pediu à sua secretária Maria Kodama que pegasse papel e caneta. Queria ditar os versos antes que a memória do sonho se dissolvesse.

Kodama caminhou até a escrivaninha do quarto do hotel e anotou o ditado. Naquela época, meados dos anos 70, ela já mostrava sinais da devoção que a tornaria famosa uma década mais tarde, como viúva e herdeira do grande escritor argentino.

Borges disse os versos de uma vez só, quase sem interrupções. E deu ao poema um título em alemão, “Ein Traum”, que significa, “Um sonho”. Sem nenhuma revisão ele foi publicado em 1976 pela editora espanhola Emecé. Kodama estranhou: Borges sempre usava sonhos como fonte de ideias, mas costumava corrigir e revisar seus textos obsessivamente – sobretudo os dos poemas, que a seu ver era a forma mais elevada de expressão artística.

Anos depois, quando eram mais íntimos, Kodama relembrou o episódio naquele hotel do Meio-Oeste dos Estados Unidos. Perguntou a Borges por que nunca corrigira “Ein Traum”. O poema seria melhor que os outros, seria a sua criação máxima? “Não, aquele poema não é meu”, Borges respondeu. Explicou que fora outro autor que aparecera no seu sonho para ditar as linhas. E o mesmo jamais retornara para emendá-lo. Só o autor do poema – o Outro, o Mesmo – teria direito de revisá-lo.

“Quem me ditou aquelas linhas” disse Borges, “foi Franz Kafka”.

Artigo de Alejandre Chacoff – Revista Piauí (nº 78- Março 2013)

sopra a dança

No sétimo compasso, foi sua última dança. O silêncio crava. As mãos desvanecem. Passo a feira de quinta. Derramo a feira de quinta. O gato contempla os passos. Passo a contemplação. Passo alto. Passo eu. Passo de leve. Passo também o terraço, passo o banco de madeira. Passo. Passo o pé de manga, passo o pé de goiaba, passo o pé de pêssego, passo o pé de cana, passo o pé de flor, passo os pássaros inquilinos. Passo este verão. Passo por passo. Passo o relógio. Passos perdidos, passos ganhos, fulgurantes passos. Se inflamam emoções simples, emoções nuas, emoções sem enredo. Orquestrações baratas, naipe de metais repercutem em exclusiva missão de rodopiarem os velhos corpos. Dividem os suspiros. Dividem a água pura. Dividem o salão. Dividem a pura sensação. São abrigos. Telhados não tem cor. Cor somente no verde. Das externas paredes. Em cores. Sem ter tempo de se perder, sem ter tempo de abrir a porta para sonhos se atreverem em azuis. Sol rachando o dia. Muito clarão, tempo. Irrefletidos momentos. Caminhos pisados. Saraus reprimidos. Poucas palavras, míseros sorrisos sem afobação. Do segundo. Da dança. Sem quase. O sol é refletor dos velhos. Qualquer coisa de finito. Escalda sol, sopra. Duas horas e meia para a crescente lua. Nem quinze minutos separam a casa que é seu lugar, da dança em décadas de bemóis. Calça os sapatos e dança com sua velha mulher. Meu velho. Abotoa tua velha camisa branca. Na sala acanhada, o telefone divide o quadrado com o tapete tentando silenciar os passos. O cochilo alumia o prelúdio da dança. Fevereiro é quentura. Na televisão os três tentos da seleção brasileira sobre os americanos de camisa azul marinho e gola vermelha. O copo americano vazio aguarda o vinho seco do garrafão dormente, em chão frio. De talher apenas o garfo, que raspa elegante a comida sobre prato de vidro marrom. Almoçou meio-dia e pouco como sempre. Olha no alto. Orvalho preguiçoso desperta o mato. Sopra a manhã. Sopra o topo das árvores. Verte a dança, sopra o sétimo compasso.