encruzilhada 

Passa lá um tiozinho com sacola de mercado e ramo de alho-poró tomando sol, pote de sorvete dos bons se revelando na transparência da sacolinha verde, senhora com jaqueta estilosa em plena demasia solar, engravatado com gel nas ideias, moleques fora do eixo tomando pingado no meio fio, carro que desce, van que sobe, caminhão descarregando produtos indecifráveis, vendedor de orquídeas aguarda, casalzinho fitness procurando um espelho, alguém perdido, alguém muito convicto, adesivo no muro, cartaz no poste, sombra gigante da árvore guardando a banca de jornal, manchetes, fotos, revistas, bobagens, gente, pãozinho na padaria, finalizo o suco de melancia com gengibre, dou bom dia ao português que me responde qualquer coisa com um leve gestual de bigode e então, por fim, desço ladeira, e saio dessa encruzilhada onde acontecem coisas mais distintas do que um trabalho forte e apimentado de macumba com farofa e 51. 

Na foto, esperei com alguma insistência, a falta de presença, uma pequena dose de ninguém.

12772084_10154050083214665_1075539135893160610_o

um encontro

12039137_10153732036499665_8570409540304821962_o
Jules Breton (Francês, 1827–1906), Asleep in the woods, 1877 – Fonte: Storie dell’arteSem que procurasse, me deparei com esse belo retrato pictórico de Breton; instantaneamente me veio uma recordação de vida de quase trinta anos atrás, mais de um século da feitura desta idílica obra.

A cena era de alguma forma parecida, só que eu, bem menor que esta moça extasiada e precavida. Tinha uns sete anos de idade, cabelos pretíssimos fartamente encaracolados e um reluzente e extenso mundo paralelo entre a leitura e a natureza, ambas abundantes naquela casa e seu quintal, que para mim significava um retângulo infinito de possibilidades.

Havia como de costume, subido na goiabeira no meio da tarde para ler gibis e ver tudo mais alto. Não sei porque desta vez, talvez antevendo algum modo adulto, me entrelacei profundamente com o sono, só que a minha poltrona eram os braços fortes da árvore que também sustentava meu balanço.

Fui despertado sem nenhum modo. A queda, um vôo rasante, demorado e inesquecível rumo a placa de cimento – que um dia já foi muro – e ficava cerca de um metro abaixo do nível inicial do tronco, aumentando ainda mais o impacto e a dor lancinante sobre meu heróico braço sinistro e partido ao meio. Fecho os olhos por um segundo. Sinto a língua do Banzé, que me vem lamber o rosto e trazer notícias da Terra.

Levanto com dificuldades, rápido, porém ainda confuso. Caminho lento lá para baixo, chorando silencioso e segurando o mais novo estrago, o maior da minha vida até então. Banzé, faz a sua parte e como cachorro querido que era, me acompanha até a porta dos fundos. Sigo andando pelos corredores estreitos, cozinha, copa, quartos, com o intuito de encontrar alguém.

Escuto o rádio-relógio do meu Vó, sintonizado na Scala FM, tocando alguma música suave e orquestrada. O som cresce com meus passos, até ver o que previa. Ele lá em seu quarto azul clarinho, cochilando calmamente com uma mão amparando a nuca e a outra sobre a barriga magra e branquela, trajando seu calção verde e surrado da Adidas. Pela necessidade, ouso despertá-lo de seu sempre merecido descanso. Ele levanta quase em um pulo, para em seguida trocarmos um olhar assustado, pausado. Quando então, relato o encontro com essa pintura.

é tudo verdade, não é mentira não

Caminhando pelas ruas do bairro depois das dez da noite, avisto minha amiga Márcia sentada na calçada, na rua lateral de uma farmácia, bem próximo de um parque. Toda encolhida pela frio, com um cachecol amarelo elegantemente cobrindo a cabeça e uma sacola plástica no chão com alguns de seus pertences – o restante prefere deixar guardado em uma papelaria de um amigo – não confia em quase ninguém e se recusa a dormir em abrigos. Quando consegue algum dinheiro ou serviço, dorme em hotéis baratos, mas é raro.

Quem a conhece não está acostumado a vê-la de cima para baixo. Tiro os fones, deixo Brahms de lado e me reconecto de vez com o mundo terreno. Após nos cumprimentarmos ela me convida para sentar ali, como se convida alguém para sentar em sua sala de estar. Pede desculpa por estar cheirando a alho, que algumas vezes esfrega no rosto para espantar seus detratores durante a madrugada que se aproxima. Sinto o cheiro, mas logo me acostumo e entendo seus motivos. Quando a encontro andando por aí, sempre está perfumada e com roupas limpas. O seu jeito de se vestir é completamente personalizado. Ela mesmo costura suas roupas.

Passada algumas queixas corriqueiras e seus problemas de saúde que atormentam seus pensamentos, espero ela se realocar e então pela enésima vez escuto algum trecho de sua trajetória de vida. A habilidade para contar uma mesma história é inacreditável. Facilmente ela prende a atenção do ouvinte, a fala é clara e a voz firme, o português é bom. A minúcia de detalhes é enorme, o ritmo veloz, como um filme contemporâneo com roteiro extenso e muita pressa. Vez em quando ela retorna para o instante presente, faz alguma pergunta pra checar se está atento, puxa alguma conexão aqui ou ali ou então é distraída por alguma coisa, acende mais um cigarro, um pequeno silêncio. Logo retorna e segue adiante.

São inúmeros nomes de cidades, ruas, bairros, nomes e sobrenomes, alguns até com o número do RG. Algumas vezes sou obrigado a interromper só pra ter certeza que estou entendendo tudo, volto em algum assunto ou nome. Ela explica novamente, dessa vez em tom mais alto. Dificilmente acha graça ou sorri de algo quando conta sua história. Alguns assuntos fala em tom mais ameno, em outros fica mais grave e pausado, movimenta muito as mãos. Cerra, abre, aponta. É uma dramática sinfonia que rege.

Daquele ângulo ficamos bem próximo dos focinhos dos cachorros, da porta dos carros e dos joelhos das pessoas. Poucas nos olham. Algumas olham só para mim, outras só para ela, mas são realmente poucas. Talvez com medo, um jovem chinês engravatado estaciona seu carro de uns cento e cinquenta mil reais longe de nós, sob a faixa de pedestres, enquanto se dirige a farmácia. Uma outra deixa o cachorro latindo no carro. Logo outro senhor estaciona e assim segue. Uns judeus paramentados caminham devagar do outro lado da rua, uma criança desse lado quase esbarra no meu pé. A cidade segue lenta, mas a angústia da Márcia parece que se renova a cada minuto. O Marlboro a acalma depois de cada trago.

Passo um par de horas ali sentado de pernas cruzadas, na quase garoa. Não consigo ficar tão elegante quanto ela, sentada no beiral como se estivesse em uma bela poltrona design dos anos 50. Quando o quase vira garoa propriamente dita, abre um guarda chuva e me oferece abrigo, mas prefiro ficar do jeito que estou. Como em um final de capítulo repentino, logo decide encerrar sua história para quem sabe continuar outro dia, ou via escrita, nos cartazes que afixa nos muros, com trechos de sua história emaranhados com crônicas da sociedade. Volta a alguns assuntos cotidianos e completa com uma suas frases mais emblemáticas: “é tudo verdade, não é mentira não”.

sopra a dança

No sétimo compasso, foi sua última dança. O silêncio crava. As mãos desvanecem. Passo a feira de quinta. Derramo a feira de quinta. O gato contempla os passos. Passo a contemplação. Passo alto. Passo eu. Passo de leve. Passo também o terraço, passo o banco de madeira. Passo. Passo o pé de manga, passo o pé de goiaba, passo o pé de pêssego, passo o pé de cana, passo o pé de flor, passo os pássaros inquilinos. Passo este verão. Passo por passo. Passo o relógio. Passos perdidos, passos ganhos, fulgurantes passos. Se inflamam emoções simples, emoções nuas, emoções sem enredo. Orquestrações baratas, naipe de metais repercutem em exclusiva missão de rodopiarem os velhos corpos. Dividem os suspiros. Dividem a água pura. Dividem o salão. Dividem a pura sensação. São abrigos. Telhados não tem cor. Cor somente no verde. Das externas paredes. Em cores. Sem ter tempo de se perder, sem ter tempo de abrir a porta para sonhos se atreverem em azuis. Sol rachando o dia. Muito clarão, tempo. Irrefletidos momentos. Caminhos pisados. Saraus reprimidos. Poucas palavras, míseros sorrisos sem afobação. Do segundo. Da dança. Sem quase. O sol é refletor dos velhos. Qualquer coisa de finito. Escalda sol, sopra. Duas horas e meia para a crescente lua. Nem quinze minutos separam a casa que é seu lugar, da dança em décadas de bemóis. Calça os sapatos e dança com sua velha mulher. Meu velho. Abotoa tua velha camisa branca. Na sala acanhada, o telefone divide o quadrado com o tapete tentando silenciar os passos. O cochilo alumia o prelúdio da dança. Fevereiro é quentura. Na televisão os três tentos da seleção brasileira sobre os americanos de camisa azul marinho e gola vermelha. O copo americano vazio aguarda o vinho seco do garrafão dormente, em chão frio. De talher apenas o garfo, que raspa elegante a comida sobre prato de vidro marrom. Almoçou meio-dia e pouco como sempre. Olha no alto. Orvalho preguiçoso desperta o mato. Sopra a manhã. Sopra o topo das árvores. Verte a dança, sopra o sétimo compasso.