sobre meu pai

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Ele se foi assim, como não quer nada. Ao seu estilo. Essa foi nossa última foto, nosso último almoço. Assim que lembrarei dele, parecendo tudo um começo pra outra coisa. Isso quando não estiver em um trem ou escutando uma música que tenho certeza que ele pediria para escutarmos com atenção, para então depois discutirmos sobre o timbre de um prato, o toque de um contrabaixo, a delicadeza de um piano ou a poesia torta de uma letra, como tal.

Muitas vezes me ligava altas horas da noite ou madrugada, nem perguntava se eu estava fazendo alguma coisa ou dormindo. Relatava que era só pra dar um alô sobre algum filme que tinha assistido e ficado muito impactado. Dizia que em outro momento falaríamos sobre isso e antes de desligar, dizia que estava com saudade era do Elvis, meu labrador.

Eu até poderia saber quais eram os acordes corretos daquela música e ele nunca teve ideia de qualquer nomenclatura. Pegava no ar e ia encaixando, atestando que certamente nunca tocarei violão como ele. Nem terei sua simpatia e sua imensa capacidade de atrair pessoas ao seu redor. Nem terei sua calma, mesmo que fosse tão estranha algumas vezes.

Jamais quis exercer o papel de pai, mas levava o título pra lá e pra cá com orgulho estampado. Nunca cobrei que fosse, pois sabia que seria caso perdido. Éramos o oposto ou o avesso um do outro com a mesma tonalidade de voz. Tínhamos o apreço e a habilidade em comum pela ironia fina e o deboche do cotidiano. Ríamos das coisas sem graça, reparávamos na mesma estampa.

Cresci escutando mil vozes o moldando como se eu pudesse fazer alguma coisa. Elas tinham também suas razões, que eu nada poderia fazer. Muitas vezes cansei, bastante, e acabei sendo seu “pai” por alguns momentos. Até que ele abrisse as mãos, soprasse e de lá saísse uma pequena mocinha sibilando dezenas de belas harmonias. Essa era sua maior habilidade. Para tentar entender mesmo, tinha que se deixar levar, com muitas asas, paciência e humor.

Quantos monólogos que fiz, sobre o que poderia melhorar em sua vida. Ele nunca ligou. Fez e viveu exatamente como quis. Não se queixava do que não poderia mais fazer e tinha consciência que já tinha feito tanta coisa. Não era um personagem desenhado por outro, era ele mesmo dentro de sua própria fábula.

Da última vez que nos vimos me pediu para que eu o fotografasse com roupas diversas, assim ele poderia trocar sua foto de perfil. Sempre preocupado com a imagem, no fundo, era em essência bem mais simples do que aparentava. Vivia com muito pouco dinheiro e com muita história vivida. Com quase nada, poderia lhe preparar um saboroso banquete. Se garantia com suas mãos habilidosas para cozinhar e um papo infinito.

“Aí, CV. Tudo bem? Também não ligo de passar o Natal sozinho. Natal é bom quando temos filho pequeno. Também não gosto de ficar indo pra lá e pra cá. O povo fica louco pelas ruas. Sobre ir a Bologna, ainda falaremos a respeito. Estou seriamente a fim de ir. É isso aí. Abraços…”

A última vez que nos falamos por telefone, estava com seus planos todos já amarrados. Me contou tudo que tinha comprado na feira durante a semana e sobre que música estava escutando. Fazia questão que eu ouvisse, nem que isso atrapalhasse a ligação. Também me comunicou que viria para a Itália. Queria ver os filhos reunidos pela Europa, que tanto lhe fez a cabeça. Disse que sentia de verdade que o tempo estava ficando mais curto. Queria voar e fabular, ao menos mais uma volta.

Obrigado a todos que passaram por sua vida.

Autor: Felipe Gavioli

Um disparo despido de interação com a cena é música sem alma para mim. É preciso um fio de intimidade, nem que seja algo momentâneo, simples, mas tecido com alguma dignidade. Meus arranjos fotográficos são construídos pelas caminhadas, arquiteturas, histórias, sons e culturas que me são apresentadas. Peço licença ao mundo tão cheio de coisas, quando então apresento uma nova imagem. Que ela seja silenciosa e, se falar, que fale bem baixinho na mente de quem as observa.

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