aurora

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Confesso que até pouco tempo atrás, além de pouco saber, também pouco me interessava sobre a Islândia.

Sim, desconhecimento e pura ignorância, talvez por crer no meu íntimo mais devastador e obtuso que um lugar desses fosse apenas um arquipélago de montanhas glaciares, com uma cultura comum aos seus pares nórdicos. Ah, claro, ter a ideia que Björk e o Sigur Ros surgiram de lá, talvez por terem aterrissado de algum planeta que esteja atrás das cortinas da aurora boreal.

Acima disso, há a soberba natural e insistente que somos levados a acreditar que as engrenagens do planeta estão alocadas nas metrópoles. Um estrago. Um pensamento conservador. Bom, mas acredito demais no ‘leitmotiv’ primordial da arte, que nos alimenta e nos salva. 

Já tinha visto algum título islandês de cinema, mas em 2015 a Mostra Internacional de Cinema de SP, promoveu um grande panorama de cinema nórdico. E entre Dinamarca, Finlândia, Suécia e Noruega, a Islândia era o tal do “peixe pequeno”. E foi o que mais me encantou.

Títulos atrás de títulos, nenhum era apenas “bom”. Eram de ótimos para cima. Estive em um debate com o diretor do filme “Hrútar”, Grímur Hákonarson, no qual ele afirmou que o banco de atores local é bem pequeno, devido a dimensão populacional do país. Isso pode nos dar a dimensão de um suposto limite artístico, se não houver prudência na concepção dos roteiros. É preciso respeitar o público e os seus próprios meios de trabalho. Em tempo, “Hrútar” é o seu filme de estreia e levou o prêmio ‘Un Certain Regard’ no Festival de Cannes de 2015.

Caindo diretamente na Alliaz Riviera em Nice, na França, o mundo esportivo presenciou um assombro, algo raríssimo. Uma equipe até agora sem nenhuma expressão no futebol, sem uma grande liga, sem jogadores badalados, bate a mais tradicional equipe de futebol do planeta, com sua estrutura estelar e centenária.

Quem já bateu uma bola ou acompanha atentamente o futebol sabe que isso não é possível por acaso, ou na verdade, isso é quase impossível. Jogadores que corriam atrás da bola como se não houvesse o amanhã. Uma disciplina tática em que não havia nenhuma vaidade. Todos por todos. Do outro lado, a equipe da Rainha pareceu não se preparar para o embate. Ao fazer o primeiro gol, de pênalti, a Inglaterra nem comemorou como se tivesse feito algo tão grande. Pareciam esperar uma saraivada de gols nas redes islandesas. O salto alto derruba qualquer um no momento certo.

O mundo ficou admirado no fato de cerca de 10% da população total da Islândia tenha se deslocado para a França, para acompanhar sua seleção. Talvez fiquem ainda mais perplexos com essa população aguerrida, de cerca de 320 mil habitantes, um pouco maior que a região da Lapa em São Paulo. Ciência, tecnologia, cultura e uma qualidade de vida social das mais altas do planeta, em um território quase inóspito, mas recheado de surpresas e belezas, como esta que proporcionou ao velho futebol.

Foto: Football Iceland

Autor: Felipe Gavioli

Um disparo despido de interação com a cena é música sem alma para mim. É preciso um fio de intimidade, nem que seja algo momentâneo, simples, mas tecido com alguma dignidade. Meus arranjos fotográficos são construídos pelas caminhadas, arquiteturas, histórias, sons e culturas que me são apresentadas. Peço licença ao mundo tão cheio de coisas, quando então apresento uma nova imagem. Que ela seja silenciosa e, se falar, que fale bem baixinho na mente de quem as observa.

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